quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Guillaume Apollinaire

Terminei este Natal de ler uma antologia de poemas de Guillaume Apollinaire. A maioria dos poemas não me agradaram, não parecia querer o poeta dizer coisa com coisa, buscava talvez somente um jogo de rimas e sons nos por vezes terrivelmente longos onanismos logomáquicos; mas os que fazem algum sentido do começo ao fim (e não somente em pequenas ilhas de ordem) são bons, porque espelham uma experiência que exatamente acontece como ele descreveu, talvez sem se dar conta dessa universalidade. Uso o advérbio "exatamente" porque, como dizem os ingleses, I can relate. Aquele poema de quando havia acabado seu relacionamento com sua amada Lou (O Amor, o Desprezo e a Esperança) tem trechos em que me vi e a um relacionamento meu de anos atrás, que depois gerou a mesma reação em mim que teve Apollinaire. Ou seja, uma bravata crua, de si para si, do que se aproveitou de maneira carnal e um reconhecimento de não haver jamais chegado à alma, ao que une realmente, para além do que os hormônios enganam.
Agora, dizer que ele é o “mais original, profundo e versátil dos renovadores da poesia francesa no primeiro quartel do século XX” é um tremendo exagero. Já se disse que suas pretensas inovações são simplesmente seu uso idiossincrático de uma língua que não era a sua. Os poemas cujas palavras seguem a forma de desenhos seus são meras e inconsequentes brincadeiras infantis. E por falar em profundidade, como medi-la em alguém que insistiu sempre em usar imagens que mais velam do que desvelam aquilo que experimentou, como se não quisesse se expor? Isso só ficou um pouco melhor nos poemas finais, mas ainda mantendo um pé firme no terreno dos significados fugidios. Isso para ele era motivo de orgulho, como se lê no poema A Linda Ruiva (um dos melhores da antologia), onde fala dos aventureiros que querem dar aos homens “vastos e estranhos territórios onde o mistério em flor se oferece à colheita” e lutam sempre “nas fronteiras do ilimitado e do porvir”. Não é só essa idolatria do futuro que Apollinaire divide com aquele nojento prostituidor da poesia, o russo Maiakovski, mas também a canonização da classe operária, cujas mulheres para aquele “são santas” e cujos filhos “são deuses calmos e infelizes”. Enfim, se tivesse vivido mais, teria talvez se tornado uma espécie de panfletário do PC francês no período entre-guerras.
Uma quase perda de tempo.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

A nova geração

Meus mais jovens colegas de trabalho achando graça dos escândalos do PT. Rejubilam-se que as filiações ao partido tenham aumentado com a prisão de seus líderes. Como se dissessem: nada atinge o PT. São os mesmos que se escandalizam com o dinheiro público estadual sendo desperdiçado, são os que têm por missão fiscalizar os gestores públicos. Pode-se dizer que seu escândalo é só para inglês ver, é a atitude esperada da sociedade bem-pensante e que eles procuram imitar da melhor forma possível para subirem na vida. Criam procedimentos que, ao invés de melhorarem, pioram o serviço que prestam à sociedade, pois superficializam sua análise em nome de um cronograma de ferro; e depois, quando o estoque de contas a analisar se avoluma até o teto, são obrigados a, de anos em anos, instituírem mutirões para análises de contas antigas ou proclamarem que são iliquidáveis em razão de sua idade. O socialismo os impregna até a medula; não saberiam, contudo, se reconhecer socialistas, pois ninguém lhes apontou o dedo e os chamou assim; olham-se no espelho e ainda se consideram liberais, democratas, crentes nos valores republicanos, seja lá o que isso for. Mas nunca vermelhos; nunca apoiadores de genocídios, de globalismos empobrecedores e embrutecedores, de anulações ou inversões do Decálogo. Os de mais alta hierarquia não entendem como políticos que têm um “passado de luta” são colocados na cadeia e outros, como Maluf, ainda se encontram soltos; não conseguem imaginar a distância que separa um genocida de um ladrão. Não votam mais no PSDB (outro socialista, mas fabiano) porque é um partido que para eles é contra o concurso público e os servidores públicos, porque seu ideal de vida é um emprego no Estado e seus filhos têm que se empregar um dia... E assim marcham os novos funcionários públicos em seu esquerdismo por default, dia após dia, eleição após eleição, até que a grande ditadura extinga de uma vez os concursos, aparelhe a dedo o que restar de funções do Estado e os fuzile e a seus filhos por não serem totalmente vermelhos, mas conterem ainda alguns traços de outras cores em suas mentes.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Náusea

O sujeito faz todo um trabalho de pesquisa de fontes, com certeza desconcertado de a profecia indicar provações e destruições que ele mesmo percebe na Igreja ao redor de si, mas nas quais ele não quer ainda acreditar, porque lhe disseram que a primavera conciliar é muito bonita e evidente, e compara a tradução disponível com o texto original, achando que aquela não é fiel, por causa de meras opções legítimas do tradutor, que não desvirtuam o sentido do texto original, e como o blog onde inicialmente achou a profecia é da Tradição, e ele é um católico no máximo conservador, desses que não admitem que o Papa erre de maneira nenhuma, até quando se pronuncia em entrevistas com ateístas, quando põe um nariz de palhaço, ou ocasiões parecidas, ele opta então por fazer sua “própria” tradução, botando o mesmo adjetivo para a frente do mesmo substantivo, quando aquele vinha depois, e mantendo em 99% a tradução primordial, simplesmente porque um blog da Tradição não é de maneira nenhuma confiável e não deve merecer um link em sua postagem, do contrário seus leitores poderiam ser expostos a informações inconvenientes e passar a perceber que há realmente uma crise, que ela é profunda e que eles mesmos fazem parte do problema e não, da solução.
Esse tipo de coisa me dá náusea tremenda.

sábado, 2 de novembro de 2013

It makes me wonder...

Pode um anjo, cujo conhecimento de Deus é maior que o de todos nós reunidos, ensinar uma oração que pede a Deus a realização de uma heresia? Pode ele ensinar a pedir a Deus uma impossibilidade? A oração do anjo de Portugal tem um trecho onde se pede: “levai as almas todas para o céu”, que é a heresia da salvação universal. É diferente quando se pede a Deus misericórdia para a salvação de uma alma particular, que pode ou não se salvar; mas a salvação de todos não se pode pedir, pois Cristo mesmo falou dos que são mandados às trevas exteriores e da separação que ocorrerá no fim dos tempos. Ela não pode acontecer, e no entanto o anjo ensinou as crianças a pedirem assim. It makes me wonder...

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Garabandal

A maneira violenta e macabra como as crianças videntes se comunicavam com Nossa Senhora – jogando com força os pescoços para trás quando ela aparecia, andando de costas com os olhos postos no céu, entre outras bizarrices – combina com a imagem terna e suave da ancilla domini que a tradição dos séculos nos passou?
Por uma simples questão de identidade de estilo – sem precisar adentrar na seara do dogma – as aparições mostram ser falsas.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

A árvore do bem e do mal e o Anticristo

Segundo me disse um amigo que conhece bem a língua hebraica, à árvore "do bem e do mal" seria melhor chamá-la de árvore "do bem-mal", quer dizer, da mentira. É o mesmo que fez Adão quando Deus o chamou, e escondeu o que fazia, e este é o segredo, creio eu, da queda do homem e de como reconhecer o falso cristo: será um mentiroso que aparentará dizer a verdade e um homem mal que aparentará ser um homem bom.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Afastamento necessário

Nós, católicos, precisamos começar a nos afastar lenta, cuidadosa e deliberadamente da sociedade civil. Já chegou a hora. Já está evidente, gritante mesmo, para quem quiser ver. A sociedade pós-moderna não tem lugar para gente como nós. Ela tem, isto sim, um tremendo desprezo por nossos valores. Somos chamados de preconceituosos e fanáticos a todo momento porque não confirmamos os outros em seus pecados. O silêncio que nos é imposto não basta; para eles, nós temos que nos submeter. Que ninguém se engane: estamos em guerra contra o Espírito da Época. Temos de empurrar de volta pelo menos com a mesma força com que estão nos empurrando. Não há nada anticristão nisso. E é também interessante começar a perceber que estamos vivendo e presenciando o desaparecimento de uma era. As sombras cresceram à medida que o sol se punha no Ocidente. Precisamos nos preparar para a noite longa e fria que se anuncia.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

O fim da hermenêutica da continuidade

Onde ficou a “hermenêutica da continuidade” com esse novo papado?

Foi colocada de lado, assim como seu criador. Ficou uma frase relegada ao passado.

O novo papa crê e age na ruptura. Não lhe interessa se o novo ensinamento vai de encontro ao que ensinaram os séculos. Para ele isso é indiferente. Se existe contradição, vale o mais novo. Essa é a atitude do revolucionário. Vale o que destrói o antigo, não interessando as conseqüências. E para Francisco o moderno é a concepção de uma Igreja em sintonia com o mundo descristianizado e repaganizado, com o mundo anticlerical e anti-sobrenatural.

A “hermenêutica da continuidade” foi para o lixo com esse novo papado e com ela todos os que apostavam na restauração da Tradição a partir da Roma modernista. E esse lixo que ainda não se percebeu como lixo começa a feder e se decompor. Ele se recusa a entender que a aproximação de Bento ao tradicionalismo era uma armadilha tática de destruição dos grupos tradicionais. Francisco não é tão sutil nem inteligente para armar esses jogos que enganam os liberais incubados dentro do tradicionalismo e com isso suas preferências afloram com mais brutalidade, como foi seu tratamento dos franciscanos da Imaculada.

Esses que acreditaram em Bento e numa conversão da Roma conciliar à Tradição da noite para o dia com seus blogues e portais ajudaram a enganar e desencaminhar milhares de pobres almas que neles confiavam para formar sua opinião sobre qual lado tomar nessa batalha e com isso acabaram lutando contra os que mais precisavam de seu apoio, os verdadeiros heróis da fé, os que serão um dia canonizados, em canonizações perfeitas, porque sofreram o martírio moral nas mãos de seus próprios superiores em nome da fé. Os enganadores calaram-se, reduziram-se a discutir hoje em dia aquelas questões do menor denominador comum entre católicos de todos os matizes conciliares ou não, que é a luta contra o aborto, o homossexualismo militante, a eutanásia etc. Eles devem no mínimo um mea culpa a seus leitores e seguidores, mas não farão isso porque são uns covardes e seu liberalismo já anestesiou sua consciência para a correta defesa da verdade. Malditos sejam.

A era dos acordos já passou. A diplomacia na religião é anátema. A guerra é aberta e em breve será total. O mundo e o demônio já entenderam isso há muito tempo. O outro campo, nós católicos, já deveríamos ter despertado para o perigo há séculos. Mas confiamos demais que nossa fé não será destruída, esquecendo as palavras de Nosso Senhor, que perguntou retoricamente: quando o Filho do Homem voltar, encontrará Fé sobre a face da terra?

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

A propósito do cinema americano

Acho que um artista deve ter um compromisso com a vida, espelhar o que ela é e não mostrar uma falsificação, um sonho qualquer, uma consolação irreal e piegas. Os que se submetem a essa deturpação, por qualquer fraqueza ou malícia que seja, deixam de ser artistas e se tornam meros mercenários, negociantes, e com eles todos que participam de seus projetos, transformando a arte num jogo sujo e sem sentido, numa alienação.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Lar

Um homem deve estar onde se sinta melhor no mundo. Para mim seria em qualquer país que um dia pertenceu ao Império Austro-Húngaro, domus habsburgensis. Claro, hoje há uma grande decadência em relação ao que já foram (e duas guerras mundiais ajudaram muito nesse suicídio), mas mesmo assim ainda guardam vestígios desse tempo que para mim valem mais que a brutal realidade que esmaga o homem no Ocidente materialista e ateu. É estranho, mas penso que, de algum modo misterioso que somente Deus entenderia, esposar os valores de um antigo império, ter uma afinidade espiritual com sua cultura morta, nos faz pertencer a ele bem mais essencialmente do que se nele tivéssemos nascido cem ou duzentos anos antes, mais profundamente que se falássemos as línguas oficiais daquele estado e déssemos nossa vida pela sobrevivência dessa cultura numa batalha decisiva qualquer.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Um chefe, ou a virtude da paciência diariamente testada

Meu chefe diz e repete que sem corrupção não é possível governar no Brasil. Em outras palavras a corrupção deveria ser descriminalizada em razão da governabilidade. Isso partindo de um funcionário público cuja função é analisar as contas dos gestores públicos é vergonhoso. Ainda bem que não diz (ainda) que o assassinato é necessário para se alcançar o paraíso terrestre, para imanentizar o eschaton, na linguagem voegeliniana, mas estaria perto de dizê-lo, se as condições o permitissem (nem diria o forçassem, pois não creio que precisaria de pressão para assumir uma tal abominação, bastando um bom sofisma da mídia vermelha). Assim pensa esse herói do coletivismo: "Como entravam o progresso do mundo os preconceitos burgueses! Como é terrível que o Estado seja sempre forçado a aumentar os impostos, algo que ele não quer, apenas porque uns poucos privilegiados não se conscientizam para a justiça social e sonegam furiosamente, ocasionando perdas que o Estado tem de compensar... Pobre Estado este, que todos tomam por vilão quando é a maior vítima de inescrupulosos capitalistas, os verdadeiros detentores do poder!" E se o Estado exigir o sacrifício humano de seus filhos em guerras sem nenhum sentido, como seria a racionalização desse pequeno - em muitos sentidos - homem? Como conciliar seu Catolicismo com a separação entre Igreja e Estado, essa idéia herética por ele defendida, esse maritainismo nojento de humanismo cristão luteranizado, cuspidor na cara de Nosso Senhor Cristo Rei?

Dane-se. Só mesmo um oceano de misericórdia para salvar um filisteu desses.

Não me surpreenderia se um dia ouvisse que ele trocou sua fé pelo emprego de um filho, ou outro motivo "nobre". Quem já fez com o mais, o destino de sua nação, pode perfeitamente fazer com o menos, que é seu destino pessoal.

Mas por que perder tempo com uma pessoa assim, fadada a condenar-se, a não ser que lhe caia às mãos uma tremenda graça de Deus? Porque através dela se entende o modo como o Criador nos testa diariamente. Se nossa paciência é um ponto fraco, Ele deseja que a fortifiquemos com provações quase diárias. Mas ainda não sou dócil ao tratamento; recalcitro; meu ser inteiro se revolta com o pensamento da passividade, da mera sublimação. Essa farsa, a meu ver, já deixou de ensinar, e apenas aborrece. Nem sempre Ele permite a vitória de seus filhos contra seus inimigos e sempre se explica isso como punição pela infidelidade; mas quando são fiéis a toda prova, como fica a explicação fácil teológica?

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Como se consegue leite e açúcar na Venezuela

Se continuarmos votando em partidos socialistas do Foro de São Paulo, veremos esta cena por aqui em breve.

sábado, 27 de julho de 2013

Relativização de São Paulo

Contra os que relativizam São Paulo e suas admoestações contra os maus costumes dos devassos, condicionando-as historicamente, saibam que um homem que teve a revelação da Parusia e das últimas coisas, e com isso também dos efeitos de suas palavras através dos séculos, não podia deixar de escrever segundo o que deve ser sempre. O peso da eternidade elevou seus textos às alturas das coisas que não passam. Mesmo que quisesse, e certamente não o quereria, não poderia escrever o que só valesse para seu tempo; pois seus escritos haviam sido tocados pela eternidade no exato momento em que brilhou a luz que o cegou. Um pensamento como esse, de que há partes do Novo Testamento que já não valem porque histórica e culturalmente condicionadas, leva ao relativismo e à destruição da fé; portanto, tenham cuidado os que assim pensam, pois podem estar começando uma jornada em direção às trevas exteriores.

terça-feira, 23 de julho de 2013

segunda-feira, 22 de julho de 2013

O que espanta

Atração carnal tornada relação cimentada por contrato e sacramento em razão dos filhos e da estabilidade social, ou dos dogmas religiosos, leva ao inferno mútuo. Esse inferno na visão cristã deve ser suportado considerando a santificação pelo sofrimento. Se o cristão não sofre, não é santo. Se não sofre, provavelmente Deus não gosta dele, e ele está provavelmente condenado ao inferno. Mas ao mesmo tempo dizem aos cristãos que não devem ir atrás de sofrimento e tragédias, porque só valem os que Deus envia para a vida de cada um. Se o cristão se casa sacramentalmente e seu casamento fracassa então é que não se abriu à graça, que em razão de seus muitos pecados deixou de recebê-la. Mas se o cristão é alguém que sempre cumpriu com suas obrigações para com Deus e Sua Igreja, é que Deus envia a dor para que ele cresça em santidade. De qualquer jeito, portanto, o cristão justifica seu sofrer como algo pertinente à vida e sem o qual a vida deixaria de ser um teste para chegar à Visão Beatífica. Com uma tal visão das coisas, sombria apesar das promessas, para dizer o mínimo, o que espanta não é que o Ocidente tenha apostatado, mas que não tenha apostatado antes.

sábado, 6 de julho de 2013

A geração identitária

É preciso a cada geração uma elite que sinta e entenda a tradição cultural de seu país como sua e que a queira transmitir com sua interpretação para um futuro que não tem como prever, que entenda essa transmissão como um dever e um sacrifício de si, independentemente de glória individual e ganho material. Essa é a geração identitária que pode com direito ser chamada de nacional; sua é a voz e a consciência da nação, seu é o ofertório do acúmulo e da criação dessa identidade atualizado no tempo. Com sua atividade generosa ela valida mais uma vez o direito à existência de seus pares e o prorroga até a próxima geração; ela oferece a Deus, naquela era específica, o que de melhor seu país construiu e contribuiu em todos os tempos para a maior glória do Criador. Tais são os jovens que merecem gravar a buril seu nome no áureo panteão da pátria e não, os que saem às ruas em manifestação de sua própria vaidade, doutrinados em filosofias falsas e assassinas, contra a lei natural, visando o fim definitivo de seu povo e de sua herança e sua substituição por um amontoado informe de pessoas de todas as línguas e fidelidades.

sábado, 29 de junho de 2013

A outra memória

As mortes vivas, a decomposição vivida, o sentimento de destruição sobre ruínas acelera meu sangue, concentra meu espírito sobre uma palavra.
Então a palavra não desabrocha e permanece recolhida em silêncio. Pouco há que fazer.
Esta memória que sou eu se apagará e será substituída pela memória de Deus e dos anjos. É uma segunda memória de que só temos notícia do outro lado.
Assim como a memória é corporal e se acaba com o corpo, a memória suprida também deveria estar relacionada com algum tipo de corpo, alguma espécie de matéria. Mas talvez seja como a visão antes do olho; memória antes da matéria. O espírito se impressiona e se imprime com seus passados mais significativos. Se há uma substituição da memória e dos cinco sentidos, até quando se pode falar que ainda seremos nós mesmos após a morte e não o que Deus imaginar que devemos ser?

quarta-feira, 12 de junho de 2013

A verdadeira caridade

Muitas vezes podemos ser “caridosos” com nosso próximo e estar encaminhando sua alma para o Inferno. A questão de saber se a caridade é um bem só pode ser resolvida se se tem em mente a verdadeira noção de caridade, que não é filantropia nem resulta do proselitismo de seitas, mas é algo que realmente aproxima outrem de Deus. Em outras palavras, é a caridade cristã, como a entende a Igreja Católica, fora da qual não há salvação. O que espíritas, mórmons e outras seitas nefastas fazem é o oposto da caridade, pois não conduzem a Deus, mas podem causar a perdição eterna da alma que, grata pelo socorro, sente-se curiosa de conhecer a doutrina dos que a ajudaram, o que, em almas mal ou não catequisadas, pode levar a uma futura filiação às ditas seitas e ao desastre espiritual. Pois só agrada a Deus quem acredita em Deus do jeito que Ele quer ser acreditado; a fé vem antes da caridade, pois só podemos amar aquele que conhecemos; e só devemos amá-lo do modo como ele quer ser amado.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Sobre o desaparecimento de blogues católicos

Um dos piores traços do brasileiro em geral é o da inconstância; seguem os ditames do coração, sentimentais a não mais poder, rejeitando a razão e a ordem das coisas como opressoras, e a disciplina como estupidez. Pois desta forma querem ser católicos? Aquele surto de blogues católicos que apareceram na esteira da eleição de Ratzinger em 2005 foi mais uma superficialidade nacional. Pouco a pouco eles foram se extinguindo, um após o outro, com os desencantos e tragédias pessoais de cada blogueiro; e os que não acabaram de vez entraram em hibernação ou se descaracterizaram. Isso não me deixa triste, pois é natural que passe (e logo, de preferência) o que deve passar, o que não tem fundação sólida, terreno árido e estéril onde nada pode medrar. Outra coisa que esses blogues muitas vezes permitiam era a troca de ofensas na sessão de comentários, ou seja, eram ocasião próxima de pecado para muitos, quando não incentivavam diretamente os insultos e as confusões com julgamentos temerários de todo tipo; portanto, nada a lamentar. Ou melhor, há algo a lamentar sim, e é não terem desaparecido mais cedo. Não podemos criar uma verdadeira cultura tradicional – como a que existe na França e na Espanha, por exemplo – dependendo de surtos. Para que ela florescesse e se expandisse, criando massa crítica demográfica, seria preciso ainda uma hecatombe política que nunca tivemos, que ensejasse uma violenta reação baseada em prévia fundamentação teórica. E esta por sua vez deve se difundir aparecendo na literatura, nas artes em geral. Os artistas deste país, contudo, são todos comprometidos com a Revolução, de um modo ou de outro. Como esperar que operem como catalisadores se não se convencerem da justiça e da beleza da tradição? E de que tradição falar, que não seja de pronto ridicularizada pelos patrulhadores revolucionários? Se esta percepção dos valores tradicionais não mudar, não haverá futuro. Ficarão chafurdando em seus pecados e barbárie geração após geração até que um invasor aporte e imprima sua disciplina e rigor à cultura anquilosada dos vencidos. Não haverá resplendor, não haverá honra, nem orientação rumo à estrutura da realidade, mas só frustrações, escravidão, injustiça, feiúra e morte.

domingo, 9 de junho de 2013

Tens rosto mas não tens corpo

Tens rosto mas não tens corpo: assim Deus
Evita a perfeição que embrutece um morto.
Mas orgulho podes ter, embora não muito:
Os traços lembram nobreza e a pele encanta
De claridade tanta. O que te falta sobra nelas,
Nas que confiam em dotes calipígios

Para a própria sobrevivência. Maldita a raça
Que da sedução e não valor viril depende,
Que efeminada se diverte até a perdição eterna,
Irresponsável dos próprios dons da natureza:
Não agüentará o embate das raças, será morta
E nem ruínas manterão sua memória.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Esses bispos

Esses bispos que proíbem comunhão na boca por causa do surto de algum vírus estão dizendo, em outras palavras, que é mais importante a nossa saúde do que recebermos, como Ele quer ser recebido, Cristo para a nossa salvação, Ele mesmo que nos criou do nada e nos mantém em estado saudável pelo tempo que quiser. Tremenda inversão de valores, que só poderia acontecer na mente de um modernista, de um estuprador de seu próprio senso comum e de seu sensus catholicus.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Papolatria

Esses mesmos papólatras, leigos ou não, que saem correndo para apagar o fogo toda vez que um Papa mal formado pronuncia uma besteira, ainda presos mentalmente a uma interpretação idiota da infalibilidade que só nos faz a nós, católicos, motivo de chacota em todo o orbe terrestre, serão os primeiros a o apoiarem quando um dia ele pronunciar as heresias que irão clara e diretamente contra os dogmas mais básicos de nossa fé, contra a moral cristã e contra a caridade, nos tempos do Anticristo. Utilizarão argumentos sutilíssimos na defesa de seu idolatrado, abrindo sobre a mesa tomos empoeirados de concílios antiquíssimos para provar que tudo que se propõe em nada contradiz o que sempre se creu; e as vacas de presépio da época balançarão suas cabeças ocas, babando, ruminando essa excrescência teológica como se sabedoria fosse, e se precipitando alegremente no abismo mais próximo com mugidos atrozes.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Ann Barnhardt: "Islamic Sexuality: A Survey of Evil"

Cá entre nós

Cá entre nós, graças a Deus não existe dogma na música, e não se discutem questões de gosto; do contrário, a julgar pelo que pontificam certos tomistas metidos a musicólogos, teríamos que jogar na lata de lixo da história da música excelentes compositores, apenas porque não foram liturgicamente corretos em suas composições religiosas, ou por qualquer outro motivo banal, que não afeta o valor de sua obra; e muita beleza em arte se perderia, pois não se encaixa na moldura de ferro da filosofia perene.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Então lhes foi dito

Então lhes foi dito que o último bastião do que mais amavam havia caído. Não tinham mais quem os defendesse. Era longo o perfeito eclipse. Então lhes foi dito que o santo havia sido enganado. Onde mais suas almas se alegraram, mais foram traídos. Por que pulveriza Deus a Tradição que ecoa o Verbo? Por um momento, houve um certo alívio. Não se calou a santa palavra, não foi tomada a alta fortaleza. Por que dizima Deus milhares de fiéis que O adoram e os joga no mesmo escuro abismo onde blasfemadores contumazes caíram? Por ato e por omissão se paga; um saldo ancestral em nossas costas. A doença mostra onde mudar, o que o arrastará para baixo. Há uma pedagogia santa na dor e no completo abandono. Foi-lhes dito errado e se alegraram. Deus não destruiu a Tradição, não puniu de morte os seguidores do Verbo. Assim seja. Que nos sirva de lição: não confiar até nos que estão em nossas fileiras, lado a lado lutando conosco.

Horrores seletivos

Muitos católicos se revoltam com o implacável rigor do sistema calvinista (segundo o qual muitos nascem já condenados e sem possibilidade de reconciliação com Deus) e não sentem o mesmo horror em relação às penas eternas do inferno, à perda eterna da alma por causa de um único pecado mortal, às crianças condenadas eternamente pela falta de batismo ao morrerem etc, de sua própria religião. O Calvinismo é apenas um grau acima no rigor da justiça de Deus em que devemos acreditar enquanto católicos.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Claude Debussy e os russos

Debussy foi de início influenciado pelos russos, tendo até mesmo trabalhado para a mecenas de Tchaikovsky, Nadejda von Meck. É interessante notar que os franceses precisaram dos russos para fugir da influência alemã e criar sua própria versão do Romantismo tardio, que eles chamaram de Impressionismo; e também que desta forma redescobriram a si mesmos e uma tradição romântica francesa meio esquecida provinda de Berlioz, que influenciou toda a música russa depois que por lá passou. Também é interessante que na própria Rússia a música de Debussy não teve muita influência; o único compositor russo cujas pesquisas composicionais se assemelham às de Debussy é Scriabin, que não precisou do francês para descobrir novas relações sonoras e expandir a fronteira harmônica de sua época.

sábado, 27 de abril de 2013

Relances da carne e do espírito

A vitória do espírito é um trabalho de séculos. A vitória da carne é uma questão de anos.
Até um herege blasfemador como Voltaire sabia disso.
Nos primeiros estágios de sua vitória, a carne ainda parasita o espírito e rende-lhe homenagem, construindo sistemas para justificar sua revolta. Contudo, uma vez alcançado o triunfo e certa de que este não lhe será mais tomado, a carne joga os argumentos no lixo e os trata como uma impertinência infantil, pois já não lhe são úteis.
Só o que vem do espírito é novo no mundo. A carne, mesmo em seu máximo turgor e eficiência, já é um monte de decadências, de repetições mecânicas. Está fechada em si mesma e é por isso que seu fim é exatamente desaparecer dentro de si, recolhendo-se sobre sua própria sombra, encolhendo e perdendo a forma. Nisso aparece a tristeza de uma impotência da carne em ultrapassar-se em sua própria tessitura, cor e peso, de uma dependência de algo superior.
Já o espírito é sempre alegre, ainda quando a tragédia o abate, pois volta-se para o além, alimenta-se da criação contínua, das novidades inesgotáveis do universo. Ele escapa ao mundo, pois é atraído por outras simplicidades, e por isso é sempre mais jovem do que ele.