sábado, 27 de abril de 2013

Relances da carne e do espírito

A vitória do espírito é um trabalho de séculos. A vitória da carne é uma questão de anos.
Até um herege blasfemador como Voltaire sabia disso.
Nos primeiros estágios de sua vitória, a carne ainda parasita o espírito e rende-lhe homenagem, construindo sistemas para justificar sua revolta. Contudo, uma vez alcançado o triunfo e certa de que este não lhe será mais tomado, a carne joga os argumentos no lixo e os trata como uma impertinência infantil, pois já não lhe são úteis.
Só o que vem do espírito é novo no mundo. A carne, mesmo em seu máximo turgor e eficiência, já é um monte de decadências, de repetições mecânicas. Está fechada em si mesma e é por isso que seu fim é exatamente desaparecer dentro de si, recolhendo-se sobre sua própria sombra, encolhendo e perdendo a forma. Nisso aparece a tristeza de uma impotência da carne em ultrapassar-se em sua própria tessitura, cor e peso, de uma dependência de algo superior.
Já o espírito é sempre alegre, ainda quando a tragédia o abate, pois volta-se para o além, alimenta-se da criação contínua, das novidades inesgotáveis do universo. Ele escapa ao mundo, pois é atraído por outras simplicidades, e por isso é sempre mais jovem do que ele.