quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Guillaume Apollinaire

Terminei este Natal de ler uma antologia de poemas de Guillaume Apollinaire. A maioria dos poemas não me agradaram, não parecia querer o poeta dizer coisa com coisa, buscava talvez somente um jogo de rimas e sons nos por vezes terrivelmente longos onanismos logomáquicos; mas os que fazem algum sentido do começo ao fim (e não somente em pequenas ilhas de ordem) são bons, porque espelham uma experiência que exatamente acontece como ele descreveu, talvez sem se dar conta dessa universalidade. Uso o advérbio "exatamente" porque, como dizem os ingleses, I can relate. Aquele poema de quando havia acabado seu relacionamento com sua amada Lou (O Amor, o Desprezo e a Esperança) tem trechos em que me vi e a um relacionamento meu de anos atrás, que depois gerou a mesma reação em mim que teve Apollinaire. Ou seja, uma bravata crua, de si para si, do que se aproveitou de maneira carnal e um reconhecimento de não haver jamais chegado à alma, ao que une realmente, para além do que os hormônios enganam.
Agora, dizer que ele é o “mais original, profundo e versátil dos renovadores da poesia francesa no primeiro quartel do século XX” é um tremendo exagero. Já se disse que suas pretensas inovações são simplesmente seu uso idiossincrático de uma língua que não era a sua. Os poemas cujas palavras seguem a forma de desenhos seus são meras e inconsequentes brincadeiras infantis. E por falar em profundidade, como medi-la em alguém que insistiu sempre em usar imagens que mais velam do que desvelam aquilo que experimentou, como se não quisesse se expor? Isso só ficou um pouco melhor nos poemas finais, mas ainda mantendo um pé firme no terreno dos significados fugidios. Isso para ele era motivo de orgulho, como se lê no poema A Linda Ruiva (um dos melhores da antologia), onde fala dos aventureiros que querem dar aos homens “vastos e estranhos territórios onde o mistério em flor se oferece à colheita” e lutam sempre “nas fronteiras do ilimitado e do porvir”. Não é só essa idolatria do futuro que Apollinaire divide com aquele nojento prostituidor da poesia, o russo Maiakovski, mas também a canonização da classe operária, cujas mulheres para aquele “são santas” e cujos filhos “são deuses calmos e infelizes”. Enfim, se tivesse vivido mais, teria talvez se tornado uma espécie de panfletário do PC francês no período entre-guerras.
Uma quase perda de tempo.