sábado, 26 de abril de 2014

Conflito

Pegue todas as linhas de um teorema e analise-as uma por uma tentando demonstrar que estão certas ou erradas. É trabalho inútil, porque um sistema em si não é auto-explicável. Você no máximo pode atestar se são contraditórias ou não. O sistema recebe sua justificativa de fora, de um sistema que o engloba e que completa suas lacunas, as quais em religião se denominam ‘mistérios’. Mas para abarcar um sistema que engloba o infinito e o finito, seria necessário um sistema inteiramente infinito. Contudo, um sistema inteiramente infinito perde de vista o finito para deter-se nos dados da eternidade. Sem essa perspectiva do finito, no entanto, o sistema se torna uma simples aplicação de fórmulas, que são insuficientes para o ser vivo a quem são necessárias respostas também vivas e finitas. Uma resposta infinita não responde ao finito. A tentativa de infinitizar o finito leva à descaracterização deste que se perde no oceano de mistérios do sistema que lhe é apresentado como explicador. O finito não entende o infinito. A descaracterização, contudo, não faz parte da ordem do universo. A ordem é necessária a qualquer sistema, ou seja, o sistema deve ser aplicável ao que é imanente com respostas imanentes. Uma religião apenas de fórmulas que apontam para realidades inalcançáveis pela experiência humana – esta experiência de carne e osso no tempo e no espaço, e não de carne e osso gloriosos – seria seca e fria, verdadeiramente inumana e descambaria em uma visão pessimista e desoladora da vida. Mas se poderia objetar que é justamente na participação do finito no infinito que está a realização do sistema; que esta é sua fundamentação, pois o infinito é origem do finito; o que leva a outro problema: como pode haver participação em reinos assim tão diferentes, se não se tratar de uma aniquilação do finito no infinito? Diz-se que essa participação eleva a natureza sem destruí-la, mas nesse caso estaríamos de volta à infinitização do finito, que é sua perda total de imanência e conseqüentemente de sua essência e identidade.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

No mesmo instante

No mesmo instante quando atinges teu máximo, é lá que és fulminado. Parece ser lei natural que o bem superior não possa ser alcançado na terra; e isso deveria nos fazer pensar. Um mundo que não é feito para a alegria, a paz ou a felicidade é um mundo amaldiçoado por quem o criou. No entanto, é nessa maldição mesma que se encontram as condições para a felicidade possível, para a alegria e a paz possíveis. As tentativas de chegar no aqui e agora à felicidade fracassaram e fracassarão, pois está na própria natureza das coisas não permitir esse sucesso; o universo inteiro conspira pelo fracasso; e se por algum intervalo parecer que as condições irão mudar, é que assim se permite, para que a queda e a desgraça imediatamente depois ensinem melhor e doam mais. O esforço imanentista do homem só traz loucura e morte. A vida plena, portanto, não deve ser buscada neste mundo, mas em outro lugar. Onde buscar, se este mundo for tudo que há? Mas nossa contínua sede por esta pátria que não conhecemos mas pela qual sentimos saudade é prova cabal de que existe, embora para chegar até ela devamos antes passar um tempo dentro da maldição, expiando a cada segundo a culpa de apenas ser, para ao final nascermos de novo à luz que de início nos abençoou para depois nos amaldiçoar.