sábado, 5 de julho de 2014

Em razão do tempo

Se as coisas precisassem de simultaneidade para surtir efeito, isso seria mais um golpe em nossa precariedade ontológica. Mas Deus, em Sua infinita sabedoria e misericórdia, tal não fez e de certa forma, nestes casos, compartilha Sua eternidade conosco, pobres mortais pecadores. Pois as coisas no tempo se sucedem, mas seus efeitos podem ser antecipados em virtude da eternidade divina. Se na eternidade Ele sabe do que foi, teria sido, é, será e seria de modo perfeito, este conhecimento aplicado ao tempo significa que o presente pode também ter efeito no passado, isto é, que não é inútil ter esperança que nossas ações influam de alguma forma no que já aconteceu. Esta comunicabilidade entre passado, presente e futuro nas mãos de Deus diminui um pouco nossa angústia em relação a nossas limitações, ao fato de só sabermos depois, de não termos podido estar onde queríamos, ou ajudar quem poderíamos. Pois n’Ele temos essa garantia de que nossos atos têm um valor independente do tempo – de que é sempre possível apelar à majestade divina e pedir que o passado possa ser alcançado por nossas súplicas, mesmo já tendo acontecido, mesmo suas conseqüências já tendo agido no tempo – de que naqueles resultados está também nossa oração, nossa penitência, os rigores que nos impusemos para que o melhor acontecesse; e estando presentes no passado como deveríamos estar, nosso coração se consola de termos afinal participado do que, em razão do tempo apenas, não pudemos.