sábado, 20 de setembro de 2014

Após a débâcle

Se escaparmos à presente débâcle, leremos as notícias de jornal de nossos tempos com profunda tristeza, talvez mesmo horror, mas não diremos que tudo já passou e não voltaremos ao vômito. A memória nos deterá, contudo, na ausência de graça: a memória insofismável, de clareza solar e lógica implacável. Não voltaremos, porque não deixamos desculpas de inexperiência: teremos testado todas as abominações, provado todos os sabores do erro, permitido todos os crimes medonhos. Estará então presente diante dos olhos da análise a longa cadeia de atos que levou ao fundo de lava da história. Seremos tomados de um indescritível alívio por termos superado o abismo, de uma impressionante paz pela reaproximação da ordem interna de nossa natureza, nosso lugar no mundo. Seremos os maiores realistas que já existiram, e teremos a utopia, sempre assassina, como uma afronta, e por utópico o pior nome com que se poderá chamar uma pessoa.
Será a nossa prova definitiva de que a queda não é um mito bíblico e que o Jardim do Éden pode ser recuperado pelo menos em espírito.
Se escaparmos, bem entendido. O que parece cada vez mais improvável.