sábado, 27 de setembro de 2014

O homem sem qualidades

Estou lendo O Homem sem Qualidades (Der Mann ohne Eigenschaften) de Robert Musil, um romance inacabado, mas enorme já no estado em que o autor o deixou (mais de mil páginas), e tem sido uma leitura muito interessante, pois através de seus personagens ele descreve em detalhe a vida quotidiana e os valores e pensamentos de moda no Império Austro-Húngaro da Belle Époque, em processo avançado de descristianização. Em certas passagens iniciais vê-se a identificação da modernidade com a máquina, a eletricidade, o boxe, as corridas de cavalo, o futebol e os cabarés; é uma agitação em oposição ao tempo de vida mais lento e arrastado do passado; o moderno é inquieto “como se formigas corressem em suas veias”; e a moralidade começa a ser outra, mas ainda mantém traços da antiga, e vê-se melhor isso no comportamento das mulheres que, após traírem os maridos, sentem remorso e humilhação e procuram se desculpar disso apelando a impulsos incontroláveis ou insistindo no "respeito a coisas respeitáveis" como a família imperial e as demonstrações de caridade, como uma espécie de compensação pelo pecado cometido, o que as tornava, segundo o autor, maçantes. Nas nações cristãs que apostataram, as mulheres são as primeiras a se converter e as últimas a apostatar. E faz-se presente também todo o fervilhar cultural de talentos que não possuíam genialidade mas se espalhavam em várias atividades artísticas, mantendo a chama da arte acesa e passando-a entre gerações, coisa que por si só espantaria quem vivesse em meio a um deserto cultural de homens vazios e ideias incoerentes e já mil vezes refutadas. Foi a quebra dessa tradição após a guerra que destruiu esses países e aniquilou espiritualmente a Europa, deixando-a à mercê de influências estranhas e nefastas produzidas por engenheiros sociais inimigos da civilização cristã.
A tradução de Lya Luft é excelente, o texto é fluido e as frases nunca mostram, em sua estrutura, que vieram de outro idioma. Imagino a dificuldade de produzir esse efeito trazendo de uma língua declinativa como o alemão. Uma obra prima também nesse quesito.